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Quando a dor não passa

10 de out.
2 min de leitura

Começou com uma dor lombar. Incomodava, mas não me impedia de trabalhar, fazer exercícios ou cuidar das minhas coisas. Eu sabia que algumas atividades poderiam piorá-la e que determinadas posições me traziam mais conforto. Não dei muita atenção. Afinal, eu era jovem, ativa e uma dorzinha de vez em quando não parecia algo com que me preocupar.


Até que um dia veio uma crise. A dor ficou intensa, e até os movimentos mais simples se tornaram difíceis. Esperei alguns dias, imaginando que passaria, mas não passou. Procurei atendimento, fiz exames e ouvi que não havia nada preocupante e que deveria me manter ativa e fazer exercícios. A orientação parecia simples. O problema era que, naquele momento, eu mal conseguia me mexer.


A crise acabou passando. Voltei ao trabalho, aos compromissos e à vida de sempre. A dor aparecia vez ou outra, mas eu seguia adiante.


Depois vieram outras crises até que, um dia, a dor não passou mais. Foi então que começou uma busca diferente. Eu precisava resolver aquela situação e entender o que estava acontecendo. Procurei médicos, fiz fisioterapia, experimentei diferentes tratamentos, sem sucesso. E, quando uma explicação não aparece, começamos a construir as nossas.


Será que existe alguma doença que ainda não descobriram? Será que há algo nos exames que não perceberam? Será que isso vai piorar? Terei de conviver com essa dor para sempre?


Enquanto tudo isso acontecia, por fora a vida continuava quase normalmente.


A incerteza também cansa. Com o tempo, percebi que estava cansada não apenas da dor. Estava cansada de procurar respostas, de tentar melhorar e não conseguir. E, em alguns momentos, aquele insucesso começou a parecer meu. Afinal, o corpo era meu. Por que ninguém conseguia me ajudar? Por que eu não conseguia melhorar?


Esse talvez seja um aspecto pouco discutido da dor persistente. Quando tentamos repetidamente resolver um problema e não conseguimos, podemos começar a interpretar a ausência de melhora como uma falha do próprio corpo ou até como um fracasso pessoal. E, aos poucos, nossas escolhas também começam a mudar.


Passamos a pensar antes de aceitar um convite, realizar uma atividade, fazer uma viagem ou simplesmente permanecer muito tempo em determinada posição. Alguns movimentos começam a ser evitados. Outros são realizados com cautela. Em dias difíceis, queremos apenas algum alívio para conseguir dormir. Pouco a pouco, a dor deixa de ocupar apenas uma região do corpo e começa a ocupar espaço na vida.


É também nesse percurso que emoções como medo, frustração, tristeza, irritação e insegurança podem aparecer. Não porque a dor tenha deixado de ser física ou porque seja “apenas emocional”. Sentir dor durante semanas, meses ou anos é, por si só, uma experiência capaz de afetar a maneira como pensamos, sentimos e nos relacionamos com o próprio corpo. Por isso, quando falamos em considerar os aspectos emocionais da dor, não estamos dizendo que ela é imaginária. Estamos reconhecendo que quem sente dor é uma pessoa inteira.


Talvez seja por isso que, diante de uma dor persistente, perguntar apenas “onde dói?” seja insuficiente. Uma dor persistente não acontece apenas em uma coluna, em um ombro, em um joelho ou em uma cabeça. Ela acontece na vida de alguém.



 
 

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